quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Verão de 1968

Sucessos em 1968


Pensando sobre o verão e o quanto a gente vai misturando fatos e eventos nos primeiros anos da nossa vida. Fiz uma viagem ao tempo tentando recordar de acontecimentos da primeira infância. Há muita coisa em flash.


Passeata contra a censura -1968 ."Eva Tudor, Tônia, Eva Wilma, Leila, Odete e Norma, mulheres liderando uma passeata em 1968. Coisa inovadora,atrevida"


A mais remota lembrança completa e detalhada que tenho do verão ,é do ano 1968,eu tinha 4 anos e meio e foi marcante por um acontecimento que mudou a vida de muita gente na minha rua.
Sei que era verão,pois estava muito quente e foi um tempo depois do Natal.Me lembro claramente da boneca e um jogo de chá cor de rosa que havia ganhado e que ainda estavam inteiras ...
Sei que era 1968 por que meu irmão numero 3,Nuno, era pequeno.Bebe ainda.
Era início de noite.
Lembro-me do cheiro delicioso de carne cozida com batatas que minha mãe estava fazendo. O rádio estava ligado e há pouco tinha acabado aquele programa A hora do ângelus,acho que é assim que se chamava.Nessa época minha mãe não era mais católica, mas gostava de ouvir este momento pois sabia que a vovó Ana,que morava longe estaria ouvindo. Era uma espécie de link entre elas.
Dona Diva , minha mãe, sentada numa cadeira da cozinha amamentando o Nuno. Eu , brincando sentada no chão e minha irmã Beth,com dois anos e pouco, tirando todos os brinquedos do lugar e derramando a agua de meu bule e xícaras.
Meu pai ainda não havia chegado, mas estávamos todos arrumados a espera dele chegar para o jantar.
Enfim, este é o cenário que esta em minha mente.






Vamos aos fatos.
Eu morei dos três aos 25 anos na SHIS SUL em Taguatinga, cidade satélite do D.F. Era um local calmo de casas populares, com gente bacana e amistosa.
Praticamente todos os moradores da nossa quadra, eram de Minhas Gerais e os que não eram acabaram se “mineiralizando” ,adaptando hábitos e costumes. Outro dia falo sobre isso.
Mudou-se pra lá um casal proveniente da Paraíba. Ele, um homem alto,moreno, forte,cabelos negros e lisos . Seu nome era Cícero. Eu o achava bonito. Sua esposa muito branquinha, e ele a chamavam assim, branquinha. Era delicada, graciosa e tímida. Chamava-se Antonia.
Cícero era um ser rústico, falava alto, palavrões, era desinibido. Serrava madeira para fazer a cerca da casa dele com muita rapidez e trazia tudo nos braços de uma vez. Era mesmo forte o Cícero. Tinha medo dele. Lembro-me que tinha um sorriso muito branco, mas as pessoas do local tinham aquela reserva bem ao estilo mineiro. E ele era observado a distância.
Não me lembro como a confusão se estabeleceu mas, aconteceu que nesse dia ouvimos gritos dele , coisas quebrando, a mulher falando algo, mas sei que era para tentar acalma-lo. Então em segundos,minha mãe deixou meu irmão que já estava dormindo no berço, pulou literalmente a cerquinha branca que separava a nossa casa com a casa ao lado e foi ao encontro da confusão.Eles já estavam na pequena área ao lado da cozinha.
Corri pra ver. A cena era de arrepiar. Minha mãe que tinha 1.53 de altura, estava se esticando na ponta do pé e segurando a mão de Cícero que tinha uma peixeira enorme e brilhante pronta para matar . Ela se colocou a frente de Toinha, se fez de escudo.
Gelei.
Nunca tinha visto nada igual,mas me lembro de minha mãe usar a peixeira para sangrar frango e sabia do estrago que fazia, senti que dali nada de bom poderia sair.
Minha mãe tinha 25 anos, era linda, morena, muito alegre,dinâmica, mas naquela hora ela ficou muito,muito séria e gigantesca.
Falava com Cícero e o encarava firme, sem piscar e ele com a faca apontada pra ela,
a ouvia calado. Então, ele deixou a faca cair no chão, quase caíndo no pé da minha mãe.





Cícero estava arrasado,minha mãe paralizada,Toinha,mais branca que nunca.
Aquele homem forte e bruto,sentou-se no batente da porta e chorou,chorou como criança.
Foi a primeira vez que vi um homem chorando.|
Até então achava que só os meninos pequenos choravam.
Gostei de ver Cícero chorando, foi bonito. Passei a gostar de Cícero.
Meu pai chegou nesse exato momento. Estava esbaforido, pois viu uma multidão em frente de casa. Minha mãe,descalça,pegou a faca e a Toinha pela mão, a levou pra nossa casa. A batata com carne queimou. Meu pai sentou-se no chão e começou a falar com Cícero.
Não consegui me lembrar o porquê da confusão, mas sei que foi um mal entendido e Cícero que tinha um ciúme doentio pela pobre moça que quase nem saia de casa, queria acabar com ela.
A rua ficou cheia, pessoas choravam, e Cícero, se levantou humildemente e pediu desculpas a todos. Retirou-se pra dentro de sua casa.
Depois disso, ele tornou-se suave, ficou menos agitado, mais dócil.
Toinha pode ser mais feliz, menos oprimida.
O casal se tornou amigo de meus pais e Cícero eternamente agradecido a minha mãe.
A faca foi jogada em cima de uma pequena laje do banheiro que havia dentro de nossa casa e foi achada quase sem a parte do metal 20 anos depois numa reforma.
Nem imagino onde estão Cícero e Antonia,mas com certeza ficariam tristes em saber que minha mãe morreu há pouco.
FOTO DOS MEUS 4 ANOS, POUCOS MESES ANTES DO ACONTECIDO


Pitaco espirituoso: Nesse caso, mesmo minha mãe não sendo Paraibana como a Toinha, a mulher-macho foi uma mineirinha arretada de Januária!

11 comentários:

Adao Braga disse...

No verão de 1968 eu não me lembro muito não, mas, anota ai:

07/07/1968 Adão Braga nasceu, em Nanuque, interior de Minas Gerais, extremo norte, divisa com a Bahia.

Bill disse...

1968, como diz o Zuenir Ventura, foi "o ano que não acabou", Naninha! Além desse episódio particular, que você relembrou com detalhes impressionantes para quem tinha apenas 4 anos, vários outros episódios mudavam o mundo para sempre. A foto que está em seu post, por exemplo, é da época mesmo. À direita, estão Leila Diniz, Odete Lara e Norma Benguel, na famosa "Passeata dos 100 mil", no Centro do Rio de Janeiro.

Caraca! E onde você arrumou aquela capa da New Musical Express? Só tem fera ali, observou? Muita gente boa surgiu depois, mas, pra mim, nada se compara ao ambiente sonoro dos fantásticos Anos 60. Tinha ditadura, mas acabou. Já a música continua, brilhando no século 21, viajando pela internet.
Vou te incluir no meu mailing. Me passa teu e-mail pelo:
billfalcaostar@gmail.com

Grande bjooooooooooooo!!!!!!

Nanamada disse...

Nanuque??tenho amigos queridos de Nanuque.Vamos ver ,pode ser seu parente,kkk

Nanamada disse...

Bill.
tenho uma memoria afetiva excelente!!
Consigo me lembrar de coisas muito além dos 4 anos e meio.Minha mãe ficava impressionada.Mas nao me pergunte a tabuada por exemplo pois ate hoje nao consegui decorar,kkkkkkkkkkkkkkkkk

Nanamada disse...

Ah! a capa do disco achei num site da década de 60...ih! não lembro qual.Supra sumo do som de 68 ne??rss

ღ mey ♥¨`*•.¸¸.•*´¨♥ღ disse...

é legal viajar no tempo assim...
lindo blog viu

bjss

Pri Satiro disse...

Oi Nana,
Agradeço sua visita e o comentário carinhoso. Adorei!

Nana, seu blog é delicioso. Seus textos são leves, divertidos e cheios de sensibilidade...Aguarde minha visita, voltarei outras vezes!

Um grande beijo

Nil Brito disse...

Nana, pelamordedeus! Que produção! E tudo do bom e do melhor! Eu leio um pouco, e penso, depois volto pra comentar... quando volto, tem mais... Tô deixando esse pitaco pra não passar em branco outra vez, mas gostaria de comentar um monte de coisa. Volto... Mas vê se dá uma "folga" pra gente (rs).

Bjs e parabéns!

Nanamada disse...

Nill,não se acostume,pois a produção se deve pelo simples fato de que estou de férias.kkkkk.Em breve volto a normalidade.Bjs e obrigada!

O Árabe disse...

Não apenas Cicero e Toinha... eu mesmo fiquei triste, ao saber dessa notícia; até porque ela deve ter sido uma pessoa excepcional. Meus sentimentos, amiga.

Murdock disse...

Eu não lembro de nada de 1968... ainda faltavam 11 anos para eu nascer rsrs.

Mas deve ter sido uma cena forte pra se ver. Lembro de algumas brigas em casa, um ou outro bate-boca e de um surto de uma empregada mas nesse eu já tinha uns 10 anos.